Uma passagem para Pasárgada?

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A relação da arte.cultura.pensamento com a ação política institucional, naquilo que chamamos de setor público brasileiro, sempre foi de um namoro, as vezes noivado, bastante atribulado. Quem, ainda, não viu pode dar uma passadela de olhos na prosa com Reinaldo Maia no inicio de nossa passagem pela Funarte de São Paulo, sobre a mobilização teatral e os partidos políticos que se constituíam depois do golpe militar. http://www.youtube.com/watch?v=4lmB6gmEf7o&feature=related

Desde os anos vinte do século passado, a arte.cultura.pensamento nos apontamentos governamentais foi imposta como um papel higiênico de adequação dos setores que não estavam, por assim dizer, alinhados aos interesses dos grupos dominantes e controladores dos escaninhos da burocracia pública. Seja pelo branqueamento e desmalandrização do samba ou mesmo na coptação de artistas e intelectuais para cargos remunerados na estrutura estatal com seus balcões de trocas.

Nos anos oitenta, também do passado século, ouvíamos ali e acolá insinuações a respeito da criação de um Partido da Cultura. Logo vinha em mente a possibilidade de outro da Saúde, da Administração, da Educação e a Universidade brasileira pode ser uma ilustração fidedigna do que resultou a departamentalização instrumental da ação política e, principalmente, do pensamento.

O argumento mais forte daqueles que defendiam a via partidarizada era a de que os representantes do setor, quando instalados em seus cargos, não correspondiam as expectativas ou não tinham força suficiente para enfrentar a máquina de moer recursos. Mais ou menos aquela noção de mudar o itinerário em plena viagem pelo simples fato de que o motorista não tinha os principios básicos para a condução de um coletivo municipal, estadual ou federal.

Redundância necessária: partidos produzem cultura de uma parte específica de cidadãos que compactuam de um mesmo principio ou crença e, até o momento, o Estado só produziu arte em condições totalitárias. Afinal, o estado da arte é o da criação, da perturbação e da ruptura, ou seja, um estado de espírito livre e provocador. Julgamos, dialogamos e batalhamos com cada governo ou partido pela sua capacidade na compreensão e investidas das prioridades e necessidades básicas de fomento e circulação desta produção.

É relevante a afirmação de Maia de que o teatro, nos ditos anos oitenta foi usado, e depois abandonado, pelos movimentos organizados como fórum para discutir e reunir a sociedade que exercitava, mais uma vez, a possibilidade de uma vida democrática. No entanto, este, também, é mote da episteme teatral. Salvo alguns enganos, o cinema, a literatura, a arte de maneira geral produz pensamento e não tem como se abster da participação efetiva nos enfrentamentos de nossas cotidianidades. Senão resuma em se constituir como uma parcela na defesa de seus interesses e, até, de oportunidades pessoais. Mesmo se denominando coletivo.

Neste sentido, as garrafas estão sempre postas nos engradados das partículas dos partidos políticos, instituições representativas de categorias, movimentos organizados ou nas corporações privadas. Cabe agora aos agentes e/ou profissionais da arte enche-las, pois, como diria um articulador do príncipe, a realidade real é dura e o caldo cozinha mais rápido sobre pressão no tamanho da chama que alimenta a panela. Senão os barulhos serão de vasilhames vazios em cantilenas até que um próximo conde ou marquesa seja apresentada à corte.

De fato, na velhice os gatos são cinzas. No entanto, com sabedoria pode-se segurar a ejaculação precoce na busca e constituição de um fazer artístico político com excelência, qualidade e, principalmente, sentidos. O itinerário não pode ser atropelado por este ou aquela barbeira, senão corre-se o risco e a risca da antropocêntrica sazonalidade estéril que o desenvolvimento da arte.cultura.pensamento enfrenta há séculos.

Os resultados deste roteiro cultural podem ser vistos e sentidos nas salas de aulas, nos grêmios estudantis, nos debates universitários, nas rodas de prosas teatrais, nas representações partidárias,nas associações e nos sindicatos. Por estas e outras vem a rítmica da antiga canção de Tavito, Azambuja e Valle: “a vida tem sons que pra gente ouvir, precisa aprender a começar de novo. É como tocar o mesmo violão e nele compor uma nova canção (…)”.

2 comments on “Uma passagem para Pasárgada?

  • Eu aprovo a linguagem com minha língua, dentes e lábios. E folgo em saber que estamos, cada vez mais e melhor, ocupando os espaços, como artistas, pensadores livres de modismos e outros “ismos”. Não é o exercício da liberdade que importa? Genial este artigo.

  • que bom, meu caro e querido!
    fico feliz em saber que gostou, pois são raras as observações e comentários
    abs

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